25 de outubro de 2010

A Terra de Deus, do Diabo e de Patativa do Assaré

(O diálogo abaixo foi inspirado no clássico filme de Glauber Rocha "Deus e o Diabo na Terra do Sol e no cordel "A Triste Partida " de Patativa do Assaré; e compõe o primeiro texto da página Diálogos do Espólio)

O sertão é paradoxal
Quem sofre seu tormento
Longe se vai
Mas logo vem
Porque não tem só o diabo
Nessa terra quente
Tem também Deus com a gente

Cantava o vaqueiro de vacas desleitadas e costelas avantajadas. O homem delgado vestido de trapos sorria com os seus dentes amarelados a felicidade de ver seu sertão.E vê-lo novamente era um presente para aquele homem. Ao provar a fumaça poluída da cidade grande sentiu seu coração apertar em meio a toda aquela gente de passos ligeiros e caras estressadas.
Ao ver aquela cena, lá do alto, Patativa recitou a Triste Partida para Glauber Rocha, e este emocionado disse: __ a Triste Partida vinda de sua boca fica ainda mais bonita e tocante. E num profundo suspiro continuou:__ seu sertão é triste velho Patativa, é uma terra que guarda muita dor. O sangue e a seca a alimentaram em muitas ocasiões.
__ É jovem Glauber, o sertão é mesmo a terra de Deus e do Diabo. O Diabo se manifesta nos estômagos que queimam de fome, mas Deus lá também está. Ele sustenta os corpos fracos de estômagos vazios e os mantém de pé.
__ seu sertão, velho cordelista, não é só a terra de Deus e do Diabo, é também a terra de Patativa do Assaré. Seu canto serve de consolo para seu povo e suas rimas ritmadas transcendem gerações. Olhe o vaquiero que saiu da cidade grande e retornou para o sertão. Ele agora faz da viola seu ganha pão.
__De vaqueiro passou a violeiro. Escuta só Glauber, ele canta meu cordel como seu hino de libertação. Que bom que sua triste partida teve um retorno feliz, e que bom também que ele faz da sua viola sua salvação.
Patativa e Glauber olhavam atentos para o vaqueiro violeiro. Ele cantava para uma roda de gente que o cercava, e seus pensamentos que ardiam na terra poluída agora aspirava a alegria na terra desnutrida. Mas era lá, na terra onde o sol racha as esperanças é que estava a felicidade daquele violeiro, que agora cantava seu próprio cordel, sem as métricas perfeitas do mestre Patativa, mas com a rima esperançosa de um bom sertanejo.

Sou vaquiero
Sou violeiro
Sou cantor
Sou pião
Sou o que
A vida pede
Pra ganhar
Meu pão.

Meu gado
Já magrelo
Procura a
Plantação,
Sua guela
Seca
Geme querendo
Água do sertão.

Eu canto
Eu toco
Pra espantar
Os maltratos
Que já se
Perderam
Em seus passos.

Sou vaquiero
Sou violeiro
Sou homem
Forte do sertão
E toco
Pra essa gente
Pra alegrar
Seus coração.
Maíra Bahia

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ODE AO POETA


Conheci um poeta
que deixou de viver
sanou o açúcar do seu corpo
e ao invés de prová-lo prazerosamente
envenenou-se em sua mente perturbada



Suas flores viraram Bolores
seus sonhos conheceram o inferno
suas asas perderam o vôo
seus amores e ardores
provaram as dores e desabores



Conheci o poeta
que não soube amar como poeta
porque poeta que sabe amar
não transforma açúcar em uma calda queimada
mas em maçã do amor



Não permite que
seu Sangue adoeça
com pílulas ridículas
desnecessárias a seu corpo
e à sua alma



Um poeta que sabe amar
vê numa aventura amorosa
mais parágrafos para seus poemas
mais palavras que sobejam
seu vocabulário conotativo



Conheci esse poeta que não soube amar
talvez porque ele não fosse do tipo romântico
seu estilo Hai –Kai, meio concretista,moder nista
dividia espaço com uma atmosfera erótica

de nus frontais



onde o gauche gritava mais alto que Alberto Caeiro
o surrealismo sufocava o impressionismo
se a sensibilidade de Frida Khalo o envolvesse

mais que as metamorfoses kafikianas
ele talvez estivesse entre os mortais



Lapidando palavras ao seu estilo
lembrando-se que

sua aventura amorosa fatal
fosse apenas mais uma em sua vida
de tantas bocas e beijos buterflys







Maíra Bahia